Por um suporte imaterial para a música

Por um suporte imaterial para a música

No início era o verbo. Ou melhor, a canção interpretada pelo artista diretamente para seu publico, sem mediação, o que o sociólogo e crítico musical Simon Frith chamou de estágio folk da música. Depois, passou a ser possível registrar as composições através de notações mas mesmo assim a interpretação se mantinha “icapturável”, “irregistrável”. Tente imaginar um tempo em que a única maneira de você ouvir, vamos dizer, Chopin tocando, era indo a um de seus concertos. Pior, não havia uma maneira de capturar o momento a não ser na sua memória. Crazy, isn’t it? Depois veio o fonógrafo, o gramofone e aí a coisa não parou mais. Inúmeras maneiras de se registrar, gravar, capturar o som foram criadas, muitas delas a gente provavelmente sequer ouviu falar. Só da superfície da memória eu poderia citar  o cilindro de acetato, a fita magnética, o disco de vinil, o compact disc e demais formatos digitais, só para ficar nos que, de fato, se popularizaram. A este estágio, Frith deu o nome de estágio pop da música e ele é marcado por um distanciamento entre artista e público – o estágio intermediário é o classico, onde a música era armazenada através da notação musical.

Assim como é difícil imaginar um tempo em que o único suporte que a música possuia era o ar (ou a memória, se você quiser pegar um caminho mais abstrato) é igualmente louco pensar que há uma geração inteira que pode nunca ter adquirido música em um suporte material (ir numa loja, comprar um LP, CD, o que for, ter a música nas mãos). Alguns vão argumentar que o mp3 é um formato material na medida em que, de uma forma ou de outra, ele ainda precisa de um suporte (um mp3 player, um ipod que seja) mas é diferente. Ninguém vende aparelhos de mp3 com seu disco dentro (embora eu ache que seria uma ótima ideia).

Há séculos eu não comprava um CD. Semana passada comprei o álbum North do Elvis Costello em CD e só porque ando empenhada na tarefa de ter a discografia completa do homem (em vinil. Mas a partir de um certo ponto isso se torna difícil, o que me obrigou a voltar a comprar um CD em, sei lá, dez anos O.O). Tinha esquecido completamente da sensação de pegar um CD, folhear o encarte, etc., ter a música nas mãos de alguma forma. By the way, o encarte deste CD é lindo e – algo que me chamou atenção – traz as letras das músicas no original, em inglês, em francês, espanhol e português. <3

Nunca fui muito ligada em novidades da indústria fonográfica mas essa semana nada menos que três lançamentos me chamaram atenção. O primeiro foi o album Chão do Lenine. O trabalho esta recebendo bastante atenção da mídia mas meu primeiro contato com ele foi através de um live chat feito pelo cantor através do Twitter (Twitcam, mais precisamente). Lenine é um cara que sempre esteve antenado não só em relação às novas mídias mas em todo o tipo de tendência artística e cultural. Sempre o considerei um cara à frente do seu tempo (apesar do desgaste dessa expressão, acho que ela se aplica perfeitamente a ele), um surfista nas ondas do espaço-tempo, o que sempre se reflete nas suas músicas. Essa semana só tive mais certeza disso.

Segundo Lenine, Chão é um disco “para se ouvir numa tacada só. Como se fosse uma suíte”. O conceito de Chão, inclusive, tem tudo a ver com a ideia que quero colocar aqui sobre os suportes. O album traz sons do mundo e um “namoro com a música concreta”. A capa traz uma foto de Lenine com seu neto repousando sobre seu peito. Segundo ele, o bebê gosta de ficar assim para ouvir os sons do corpo que fazem lembrar da barriga da mãe. Outros sons presentes no disco vão desde o canto de um canário aos batimentos cardíacos de Bruno, filho do cantor, passando pelo som dos passos no orquidário onde foram gravadas algumas faixas. Ainda segundo Lenine durante o chat, “Chão é o que me sustenta”. Eu digo mais, chão é o suporte, um suporte material e imaterial ao mesmo tempo, um terreno em que se pode tanto pisar firme quanto flutuar sobre ele. Lenine, em plena crise do suporte (porque, vamos combinar, a música vai muito bem, obrigada. O que está em cheque é a comercialização da música, as formas de distribuição, o que passa, necessariamente, pelo suporte físico da canção) em um momento em que cada um monta sua própria programação musical através de fragmentos de obras – a famosa cultura do shuffle – o cara me faz um album que é uma obra completa, com início meio e fim, em que as partes nunca poderão falar pelo todo, em que nada é descartável ou aleatório. Será que estamos vendo o renascimento do álbum enquanto conceito?

O segundo lançamento que me chamou atenção nessa semana musicalmente agitada foi Lulu, um álbum colaborativo entre Lou Reed e Metallica. A parceria nasceu em 2009 no encontro da banda com o ex-líder do Velvet Underground no concerto de 25 anos do Rock and Roll Hall of Fame, onde tocaram juntos alguns clássicos do Velvet. Ali, decidiram que a parceria deveria se transformar em um álbum. Metallica, aquela banda que tomou a iniciativa de processar o Napster e deflagrou a guerra contra o MP3 e que, dez anos depois, disponibilizou seu último álbum, Death Magnetic, na íntegra para download (pago) em seu site, LIBEROU o álbum completo para ouvir online, via streaming (e eu ouvi, claro).

Lulu é uma ópera em três atos do compositor austríaco Alban Berg cujo libreto é uma adaptação das peças teatrais  Erdgeist (1895), de Frank Wedekind e A Caixa de Pandora, (1903), do próprio Berg. Em 2010 foi feito o caminho inverso e Lou Reed foi responsável por adaptar a ópera de volta para o teatro, em Berlim. Já em 2011, Reed decidiu trabalhar Lulu em outro nível e achou que o Metallica era a banda ideal para a tarefa.

Não é segredo pra ninguém que Heavy Metal e música clássica tem tudo a ver mas diferente da já tradicional combinação dos dois estilos na forma do Power Metal, Synphonic Metal, etc, Lulu, o álbum, é de fato uma ópera metal. São músicas (ou eu deveria dizer, uma suíte?) que eu me sentaria numa sala de concerto para ouvir tranquilamente. Ou ainda, colocaria o disco para tocar sentada na minha sala com uma taça de vinho e luz baixa e eu nem precisaria sair para chorar como (segundo consta) fez James Hetfield inúmeras vezes enquanto gravava – Lulu conta a história de uma jovem que sofreu abuso, trabalhou como dançarina e se prostituiu e chama atenção o teor “pesado” das letras compostas por Reed.

O terceiro acontecimento fonográfico da semana foi o pré-lançamento do novo álbum do Tom Waits. Bad As Me será lançado oficialmente na próxima terça-feira, dia 25, mas alguns fãs que se cadastraram previamente já podem ouvir o álbum na íntegra, via streaming, através do hot site oficial. Antes disso, Tom Waits chamou atenção ao comunicar o lançamento do álbum em uma ação na internet que incluía colocar alguns fãs dentro de um carro para ouvir trechos do album. Fico me perguntando se Tom Waits é o tipo de artista que (1) precisa de ações ousadas na internet para lançar um álbum e (2) precisa lançar o referido álbum em formato user-friendly para todos os tipos de público. Quero dizer, me parece que se o cara lançasse o disco SÓ em vinil, por exemplo, isso não comprometeria nem um pouco as vendas. Pelo contrário, arrisco dizer que daria até mais lucro. A questão é, o que ele está querendo nos dizer com isso? – Até porque, um cara como Tom Waits não faz nada a toa, né?

Pra mim parece bastante claro que se deve investir em um formato imaterial para a música que é uma arte imaterial por essência, excelência e definição. Se nem o CD, nem o vinil, nem o mp3 parecem sustentar mais o mercado de música, que tal sustentar a música em si mesma? De maneira mais objetiva, me parece que, nos dias de hoje, mesmo com um quadro aparente de fluidez cultural em que as pessoas parecem navegar por estilos, tendências e gêneros musicais, produzir uma obra completa, plena, conceitual é, ao mesmo tempo, anacrônico e um espírito do tempo presente. Por acaso temos a internet para difundir esta ideia mas poderia ser qualquer coisa. O importante é a música, ela que é o nosso chão, o terreno onde podemos tanto pisar firme como deslizar, o mais imaterial dos suportes. A música é o meu chão e o chão é o que me sustenta.

A música não está em crise, como querem acreditar os apocalípticos. Nunca esteve. O fato é que estamos repensando o modo como consumimos música e se boa parte da indústria ainda parece perdida (mesmo depois de uma década inteira de murro em ponta de faca), parece que alguns artistas já encontraram seu caminho e sabem muito bem em que terreno estão pisando. Me parece que o caminho mais sensato é seguir os passos desses caras. Até porque eles já nos levaram a muitos lugares que adoramos visitar. Não perdemos nada em continuar confiando neles.

“Get up, stand up”: Bob Marley é um sobrevivente.

“Get up, stand up”: Bob Marley é um sobrevivente.

Hoje eu resolvi me submeter a mais uma sessão de nostalgia revirando vinis velhos e vendo o que dá pra aproveitar do passado aqui de casa. Havia uma caixa no sótão com vários discos que foram dos meus pais e de outras pessoas da minha família e era uma daquelas caixas que estiveram “rolando” possivelmente por anos, entulhada junto com centenas de outras coisas e manuseada sem o menor cuidado. Ao procurar nessa caixa (não sei exatamente pelo quê) achei coisas que nunca imaginei que habitassem essa casa junto comigo. Infelizmente a maioria está em péssimo estado (alguns estão com a capa manchada do que parece tinta de parede. o.O Outros nem capa tem mais) e muitos estão irremediavelmente arranhados.

Algo que me fez abrir um sorriso foi a descoberta desse disco do Bob Marley, intacto, sem nenhum arranhão e com a capa praticamente nova (na medida do que é possivel para um disco da década de 70). É como um sobrevivente de um desabamento, encontrado no meio dos escombros.  Há uma citação na capa que diz o seguinte:

“Me is a man, me suffer inna the ghetto… And the last place me live a Ghost Town ’til the government push it down…”

Esse disco contém duas das faixas mais famosas: I shot the Sheriff e Get up stand up cujo refrão é uma das definições mais eloquentes do reggae como a música de protesto jamaicana: “Get up stand up / Stand up for your right/ Get up stand up / Don’t give up the fight“.

Há depoimentos de Marley sempre no início das músicas mas eu não consegui entender uma palavra do que ele diz, por mais que eu tenha tentado. Lendo o encarte descobri que se trata de uma gravação de um programa de rádio em São Francisco em 1973 e o único registro da primeira turnê norte-americana do The Wailers. Quanta coisa eu estava perdendo deixando esse disco abandonado no sótão!

Este episódio me fez pensar em como o vinil é um suporte resistente e frágil ao mesmo tempo… Bem, Bob sobreviveu e esta tocando no meu toca-discos neste instante, mas outros podem não ter a mesma sorte então convém cuidar bem dos seus filhotes discos de vinil. Mesmo porque a tendência é que essas belezinhas se valorizem ainda mais e, bem, mesmo que você decida nunca se desfazer deles, vai que… né?! Além disso, é nosso dever conservar essas jóias para gerações futuras.

O Homem do Futuro – Cultura pop invadindo o cinema nacional.

O Homem do Futuro – Cultura pop invadindo o cinema nacional.

Quem nunca quis voltar no tempo e consertar tudo o que fez/ deu errado na vida? O clichê é velho e superexplorado tanto na literatura quanto nas telas. Hoje, mais do que nunca, nada se cria. Todo o tipo de historia já foi contada e é praticamente impossível criar qualquer coisa original, do zero. O diferencial, portanto, esta no modo como a historia é contada.

Em O Homem do Futuro conhecemos um personagem frustrado e que de tão amargo chega a soar falso nos primeiros minutos de filme. João, interpretado pelo lindo talentosíssimo Wagner Moura) é professor e pesquisador de física na universidade. Durante um experimento com um acelerador de partículas é levado de volta ao passado e, aterrissando justamente na noite mais importante de sua vida, decide mudar tudo. Só nesta introdução já daria para comparar com dezenas de outros filmes sendo o mais obvio deles de volta para o futuro e, sem dúvida, uma referencia. Mas se o João cientista que retorna ao passado tem ares de Doc Brown ele ganha, ao longo do filme, contornos de Peter Parker. Nosso herói e porque não dizer super-herói não só é um autêntico nerd (super inteligente, desajeitado e nada atraente) como alimenta, assim como Parker, uma paixão pela ciência e pela garota mais bonita da escola. Mais do que isso, nosso Peter Parker com leve sotaque baiano também carrega o dilema “ficar com a garota ou salvar o mundo?” Quase pude ouvir a voz do Tio Ben em muitos momentos dizendo que “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Muita gente critica os clichês (na verdade, é clichê criticar os clichês). Pra mim o clichê só é ruim quando mal usado, ou seja, quando vira estereótipo puro e simples, forma sem conteúdo.  O clichê bem usado aproxima o espectador do personagem. Não sei se foi pelo fato de o filme ter mexido com alguns repertórios muito importantes da minha vida mas eu me identifiquei muito com o(s) personagem(ns) e me emocionei em vários momentos. Vamos a eles:

Quem nunca se sentiu um estranho sem lugar no mundo? Quem nunca quis ser especial, fazer parte de uma turma e ser, ao mesmo tempo, único? Passei boa parte da minha vida procurando ser eu mesma e sofrendo as consequencias disso (quais sejam: solidão, deslocamento, etc). Sendo assim, como eu poderia contêr as lágrimas ao ouvir os primeiros acordes de Creep, do Radiohead, na voz e interpretação de Wagner Moura, justamente no momento em que o personagem se encontra mais solitário? Outro clichê bastante familiar e que está diretamente relacionado ao item anterior: a rejeição. Quem nunca sonhou e quis ter desesperadamente aquela garota ou aquele cara que parece ser o cúmulo da perfeição e que (talvez por isso mesmo) nunca quis nada com você? Bem, a boa notícia é que Cláudio Torres quebra um pouco essa regra, provando que nerds estão na moda. Dessa vez, Alinne Moraes, nossa Mary Jane, enxerga o nerd mas algo da errado, como sempre.

Por último, mas não menos importante, o filme traz mais ou menos escondido o amor pela música, principalmente a do final dos anos 80/ início dos 90. Arrisco dizer que a escolha de Tempo Perdido, da Legião Urbana, foi uma das coisas mais sagazes que já vi em muito tempo. E como uma boa música tema deve ser ela leva o filme, conduz e faz parte da narrativa e não serve apenas como pano de fundo. Inclusive eu nunca tinha reparado como essa música fala do tempo não como a linha reta que estamos acostumados a pensar mas como o emaranhado de paradoxos que de fato é (segundo algumas teorias) Bandas de rock brasileiro dos anos 80 (o famoso B-Rock) fazem parte da minha vida.  A menção a este gênero (não só nas músicas mas na menção a um show dos Titãs, por exemplo) foi parte do que me conquistou no filme cuja ação principal se passa no ano de 1991.

Por tudo isso eu perdoo o filme por algumas inconsistências de roteiro. Também por causa dos efeitos especiais econômicos, precisos e pontuais. É uma comédia romântica de primeira. As piadas também econômicas tem um ótimo timing e o romance, bem, é difícil errar nesse quesito, principalmente com uma manteiga derretida como eu. Nunca é demais destacar a primorosa atuação de Wagner Moura que encara três papéis totalmente diferentes mas que, ao mesmo tempo, são a mesma pessoa: um nerd universitário, um cientista maluco e… ahn… o homem do futuro, de fato. Mais do que isso e eu vou estar abusando do direito de dar spoiler mas adianto que não é pra qualquer um.

Os fãs de quadrinhos e ficção vão gostar, mas não os mais nerds. A parte pretensamente científica da coisa deixa a desejar e questões como o paradoxo espaço-tempo não só ficam muito mal explicadas como mal formuladas. Claro que não dava para esperar grandes respostas e teorias elaboradas (se nem em Lost a gente conseguiu isso). O problema é a confusão que isso gera no roteiro em determinado momento (justamente no clímax). Mas acho que, no fim das contas, nosso herói vestido de astronauta não estava preocupado em provar se é possível viajar no tempo. Ele queria provar por A + B que o amor existe e pra mim ele conseguiu.

“E a primeira emenda?” ou “Porque Elvis Costello não podia tocar Radio Radio no SNL.”

“E a primeira emenda?” ou “Porque Elvis Costello não podia tocar Radio Radio no SNL.”

De tempos em tempos me bate uma saudade dos anos 80! Tudo bem que “saudade” é praticamente meu nome do meio mas eu cresci nos anos 80 e acho que essa década, que muitos dizem ter sido esquecida pelo bom gosto, moldou meu gosto musical e, consequentemente, minha personalidade. Isso também não tem nada a ver com a recente onda nostálgica dos anos 80 que fez ressurgir das cinzas criaturas bizarras tipo Ursinho Blau Blau e Rosana – esses era melhor que permanecessem bem enterrados mesmo. Fato é que se eu posso lamentar não ter vivido os anos 60 e 70, posso me orgulhar de ter pego pelo menos uma parte dos 80.

Daí passei minha tarde de sábado escavando coisas no youtube. Achei esse video dos Titãs tocando no programa do Chacrinha. É tudo tão inacreditável nesse vídeo (as chacretes, a platéia insana, a figura do Chacrinha) que é até difícil se ater a um detalhe mas o que mais me chamou atenção foi a música: Bichos Escrotos.


Imagine uma época em que tudo bem falar “escrotos” e “vão se foder” em rede nacional. Pra gente que cresceu nesse país maluco não parece nada demais mas dá pra ter uma noção de como as coisas aqui sempre foram mais, er, “liberadas”, se compararmos com um outro episódio.

Em dezembro de 1977 (alguns anos antes do video anterior) Elvis Costello & The Attractions foram convidados a tocar no Saturday Night Live. Eles substituiram o Sex Pistols que não conseguiram tirar seus vistos a tempo. Na ocasião os produtores pediram à banda que não tocassem Radio Radio, devido às críticas à mídia de massa contidas na música. Mas você não diz a Elvis Costello o que não fazer, ou diz? Resultado: A banda começou tocando Less Than Zero, Elvis interrompeu a banda dizendo “Desculpem, senhoras e senhores, mas não há motivo para tocar essa música” e, sem dó nem piedade, mandou Radio Radio. Os produtores ficaram furiosos, principalmente porque o programa foi tirado da grade após o episódio, voltando algum tempo depois.

O episódio entrou pra história mas infelizmente não pro youtube. :(

Mas, vem cá, os Estados Unidos não são a terra da liberdade (de expressão, principalmente)? Não são os Estados Unidos o país cuja primeira emenda constitucional versa justamente sobre liberdade (mais especificamente liberdade de expressão, de imprensa, de culto religioso e de associação pacífica)? Ah, ok, o problema é falar mal da mídia? Então dá uma olhada nisso aqui:

Ao que parece, o Brasil, mesmo com todos os problemas da nossa democracia, ainda tem muito mais liberdade que muitos outros países tidos como mais desenvolvidos, ou pelo menos costumava ter. Claro que essa liberdade servia (e ainda serve) a outros propósitos, como desviar a atenção da opinião pública mas ainda acredito que alguma liberdade é melhor que liberdade nenhuma.

Vale lembrar que há várias versões para o episódio Costello vs. SNL, inclusive para as reais razões de ele ter sido praticamente banido do programa por dez anos. Alguns acreditam, inclusive, que o fato contribuiu para a imagem controversa e contracultural que ambos procuravam construir na época e que, na verdade, todos os envolvidos saíram bastante satisfeitos. Não sou cínica a esse ponto e tendo trabalhado algum tempo em produção de programas de rádio e TV ao vivo posso garantir que as coisas não são tão friamente calculadas como os conspiradores gostam de pensar.

De qualquer forma, é história, e a história, como dizem por aí, vai se repetindo, primeiro como história, depois como homenagem, depois como mito, etc.  E a homenagem veio 20 anos depois e o mito vai sobreviver, não importa quais sejam os reais fatos por trás dele.

[Evento] Toca-livros: encontros sonoros na biblioteca da música brasileira.

[Evento] Toca-livros: encontros sonoros na biblioteca da música brasileira.

Começou no dia 16, o Toca-Livros, um projeto incrível que acontece em agosto e setembro, no Oi Futuro Ipanema e na CAIXA Cultural. O evento irá abordar das origens da música popular brasileira ao funk carioca, da jovem guarda ao rock brazuca dos anos 80, da tropicália à chamada música cafona, do samba do Estácio à era dos festivais passando pela bossa nova. Assim, o projeto apresenta um significativo panorama da identidade musical do país a partir dos livros e do depoimento de seus pesquisadores e escritores.

Serão nove encontros na Biblioteca da Música Brasileira. Pena que quando fiquei sabendo do evento já tinham rolado duas palestras mas ainda bem que vai dar tempo de eu conferir o Artur Dapieve falando sobre o rock brasileiro dos anos 80, no próximo dia 23.

Check it out:

www.tocalivros.com.br.
O Oi Futuro Ipanema fica na Rua Visconde de Pirajá, 54 – Ipanema.
A Caixa Cultural fica na Av. Almirante Barroso, 25- Centro.
Sempre às 19h30 – Entrada franca.
Distribuição de senhas meia hora antes do início de cada sessão.

Rebobine, por favor.

Rebobine, por favor.

Hoje assisti um DVD enviado por um dos meus mail friends europeus. O DVD em questão veio da Irlanda e, ironicamente, contém um show do Elvis Costello gravado no Rio de Janeiro.  O tal show aconteceu em 2005, no Tim Festival. Na época eu era uma adolescente idiota (ok, não tão adolescente, eu já tinha 20 anos) e ouvia coisas terríveis tipo Nightwish (é… eu sei). Em 2005 eu sequer sonhava que este homem existia e o cara estava aqui, ou melhor, ali no MAM fazendo um show incrível! Enfim, se lamentar não adianta, então comecei a catar a gravação do bendito show. Só encontrei duas músicas no youtube mas, por sorte, um dos fãs do EC com quem tenho trocado emails nos últimos tempos tinha o DVD e se ofereceu para me enviar uma cópia pelo correio. Pois é, as pessoas ainda copiam DVDs e ainda enviam presentes pras outras pelo correio, por livre e espontânea vontade e sem pedir nada em troca. É, eu também me impressiono com essas coisas.

Anyway… Ao pôr o DVD pra tocar percebi logo de cara que se tratava de uma conversão de VHS. Não parece tanto tempo mas, de fato, há seis anos a gente ainda não tinha toda a facilidade que tem hoje e o videocassete ainda quebrava um galhão. Tirando o show que, como eu já disse mas nunca é demais repetir, é absolutamente incrível, EC e banda em plena forma, etc, aquela imagem granulada e os eventuais defeitos no vídeo devido ao desgaste da fita me fizeram voltar no tempo.

Passei boa parte da minha infância e toda a minha adolescência gravando e assistindo shows, entrevistas e clipes das minhas bandas preferidas em VHS. Gravava fitas inteiras (em formato EP, pra caber mais coisas) e trocava com as minhas amigas. Em determinado momento aprendi a manha de ligar um videocassete no outro para fazer cópias. Assim, passei a editar minhas próprias fitas, fazia montagens loucas e tals. Não é a toa que hoje em dia eu trabalho com edição de vídeo, entre outras coisas.

O que eu adoro em qualquer coisa em formato analógico é justamente a noção de que as memórias se desgastam. Ou pelo menos costumavam se desgastar porque hoje em dia, com a digitalização, tudo parece eterno, congelado, conservado artificialmente. As coisas nem precisam mais de suporte físico! Filmes, livros, músicas, está tudo armazenado (se é que ainda dá pra falar em armazenamento propriamente dito) em uma grande nuvem.

Eu sei que eu pareço uma nostálgica (e talvez eu seja mesmo) mas acho que esse congelamento das memórias em formato digital é falso. Ora, as memórias se desgastam, se perdem, a gente esquece, modifica, substitui. E se o tempo passa e a gente passa, pra quê conservar tudo ad aeternum? Não é tão mais gostoso assistir uma fita antiga ou ouvir um vinil antigo e praticamente sentir o cheiro do tempo que passou? Não é incrível de repente esbarrar em objetos que parecem armazenar um pouco do seu passado, um pedaço do que você era?

Por exemplo, dia desses vasculhando coisas velhas aqui em casa achei duas coisas muito interessantes. Uma foi um disco da Legião Urbana, o Que País é Este. B-Rock é algo que ouço desde criança (Legião, Barão, Titãs, Paralamas, Engenheiros, Blitz…) mas como eu era mesmo muito criança eu também fazia coisas de criança, tipo rabiscar a capa dos discos. E olha quem essa menina de 7/8 anos achou que precisava de um tapa no visual:

Tadinho do Renato Russo.

A outra coisa incrível que achei foi uma caixa com várias fitas k7, a maioria mixtapes, que dizem muito sobre meu gosto musical na época.

Surpresa em descobrir que eu ouvia Guns 'n Roses em algum momento da minha vida.

Pelo que dá pra ver através dessas fotos, parece que você não precisa conservar as lembranças cem por cento intactas para que elas sobrevivam. Vamos deixar o tempo fazer o seu trabalho, vamos? Vamos deixar os momentos envelhecerem, vamos deixar que as coisas contem a nossa história do jeito delas. Até porque isso tudo são só fragmentos. Somos feitos de fragmentos e não adianta nada passar a vida tentando juntar todos os pedaços e guardá-los numa caixa.

“I hear that South America is coming into style”.

“I hear that South America is coming into style”.
Nota mental: esse negócio de título em inglês tá começando a cansar.
 

Você já deve ter notado que, de uns tempos pra cá, parece que a América do Sul e em especial o Brasil finalmente entrou na rota dos shows internacionais. U2, Paul McCartney, Eric Clapton, toda essa galera que costumava ignorar solenemente os pobres mortais aqui em suas turnês “mundiais”, parece finalmente ter descoberto o Brasil. Mas não se anime muito.  Os motivos não são assim tão nobres quanto a gente pensa: o resto do mundo está em crise econômica e, consequentemente, menos disposto a gastar dinheiro com entretenimento. Os brasileiros, por sua vez, nunca gastaram tanto com cultura e diversão.

Bono Vox na turnê U2 360º

Até aí tudo bem, não fosse o valor dos ingressos por aqui ainda ser muito acima da média em se tratando de grandes espetáculos. Um dos vilões é a inflação e a desvalorização do dólar. Segundo o jornal O Globo do dia 19 de julho, “os preços dos serviços não prioritáridos no orçamento familiar, como espetáculos, já superam a inflação média em 12 meses, até junho. Shows de música ficaram 7,24% acima da inflação.” O jornal aponta, ainda, o fato de o Brasil ser o único país a oferecer 50% de desconto para estudantes: É sabido que a imensa maioria dos eventos (para não dizer todos) tem o valor dos ingressos dobrado já prevendo a grande quantidade de meia-entrada. Assim, o estudante acaba pagando o valor “normal” e quem não tem carteirinha se f***.  Nesse caso, a “culpa” é da meia-entrada ou da esperteza dos produtores? Bem, isso já é outro assunto.

Paul McCartney: Dois shows no Brasil em menos de 6 meses.

Fato é que outro grande vilão é o custo Brasil: impostos altos, alto custo da infraestrutura e logística, etc. O jornal comparou, por exemplo, o preço da locação de palco nos EUA (US$ 30 mil) e no Brasil (R$ 200 mil!). Quanto aos impostos, já sabemos que são muito altos mas raramente sabemos exatamente que tipo de impostos são esses e muito menos pra onde vai o dinheiro. O show do Ozzy Osbourne, por exemplo, pagou R$ 91 mil de Imposto sobre Serviço (ISS), ante renda bruta de R$ 6 milhões (Dá pra entender porque os produtores estavam literalmente desesperados com as baixas vendas e estavam quase dando os ingressos).

Outras taxas que influenciam no custo dos shows são: 33% de Imposto de Renda, 10% de taxa da Ordem dos Músicos do Brasil, 3% de Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos. Além disso, há custos com o visto de trabalho (US$ 210 por músico e US$ 100 por música para os despachantes internacionais). Sobre a bilheteria, mais impostos: de 5% a 10% para o Ecad, referente a direitos autorais, mais 5% de ISS, além de PIS, Cofins e Imposto de Renda sobre o lucro presumido. Ufa!

O Brasil se tornou um destino atraente não só para artistas como turistas também (principalmente com a proximidade de eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas), mas poderia ser muito mais. O país poderia aproveitar muito melhor a “onda” e se estabilizar como uma grande economia mas do jeito que a coisa vai, tudo indica que não vai passar de uma moda e assim que a economia mundial voltar a se estabilizar vamos voltar a ser a República das Bananas, destino dos fugitivos políticos internacionais e turistas em busca de experiências exóticas.

Como diria Elvis Costello na música Less Than Zero, “I hear that South America is coming into style”. Só nos resta esperar que a moda demore a passar.

  

Fontes: Instituto Millenium e O Globo.

Ilegal download killed the MTV stars.

Ilegal download killed the MTV stars.

Na escalada do telejornal uma notícia sobre apreensão de CDs piratas não sei onde. Muito me espanta que em pleno 2011, com inclusão digital comendo solta, ainda se fabrique e se venda CDs piratas.

Achei também que já estávamos acostumados com a livre circulação de conteúdo. Isso me lembrou uma fala do Elvis Costello (o Homem, o Mito) numa espécie de documentário que consta nos extras do DVD Club Date: Live in Memphis (obrigatório, por sinal! De repente faço um post sobre ele um dia).

“Este artista não endorsa o aviso a seguir. O FBI não tem seu número de telefone e espera que também não tenha o seu.”

Artistas inteligentes são os primeiros a perceberem que o livre compartilhamento de música só traz benefícios. É sabido que os únicos que realmente lucravam com a venda de discos e CDs eram as gravadoras. Com o barateamento dos custos de produção e distribuição de música não precisamos mais das majors, o que da oportunidade a artistas que talvez não tivessem lugar na grande indústria mainstream.

Me permiti ser repetitiva no título do post para mostrar, justamente, que só quem tem a perder com a “pirataria” (termo, aliás, que eu acho super equivocado) são as grandes corporações. Público e artistas só tem a ganhar.

Além disso, como Mr. Costello aponta, um moleque de 15 anos não está nem aí para as consequências do download ilegal. Qualquer garoto nessa idade já entendeu que essas regras estão ultrapassadas. Falta mais alguém entender?

Cassete tape killed the vinil stars

Cassete tape killed the vinil stars

Não é novidade pra ninguém que, hoje em dia, muitas pessoas vivem na nostalgia dos discos de vinil. Muitos defendem que este formato é melhor que o CD, tanto em termos técnicos (a digitalização diminuiria a qualidade do áudio) quanto em termos estéticos (a sonoridade do vinil seria mais “encorpada”. Sem falar naquele chiadinho nostálgico do atrito da agulha no disco).

Apesar de eu ser totalmente viciada em música desde que me entendo por gente, nunca fui muito entusiástica desse formato. Na verdade eu nem poderia ficar defendendo o vinil e o analógico de uma maneira geral visto que eu me beneficiei muito da digitalização e consequente transformação na distribuição de música. Ora, não fosse o MP3 e o compartilhamento de música via P2P dificilmente eu teria acesso a gênios como Tom Zé e Elvis Costello, pra citar só dois. Claro que são coisas muito difíceis de ponderar mas acredito que a portabilidade e a livre distribuição de conteúdo era mesmo o único caminho imaginável. Não fosse em formato mp3, não fosse através de downloads, seria de outro jeito.

Por exemplo, um formato que eu sempre gostei era o cassete (ou K7, na versão aportuguesada e descolada) .  Eu e meu walkman éramos inseparáveis (mais ou menos como acontece com meu iPod hoje em dia).  De alguma forma eu sempre curti edição de áudio e eu gravava fitas e mais fitas com playlists diversas (hoje o iTunes facilita bastante esse trabalho). Só há pouco tempo eu consegui perceber que não é que eu não seja nostálgica em relação ao modo como eu comecei a ouvir música, o formato que era diferente.

Ora, se LP e K7 são mais ou menos da mesma época porque não existe o mesmo culto (cult) em relação àquelas fitinhas lindas e coloridas? Não saberia dizer se a qualidade do som era melhor ou pior (acho que a última vez que ouvi uma fita cassete faz mais de 15 anos!) mas arrisco dizer que dava rigorosamente na mesma (também não vejo nada demais no som do vinil. Por favor, não me matem).  Fato é que as fitas cassete eram mesmo meio vagabundas: de plástico, frequentemente agarravam no deck (que engrenagenzinha filhadaputa. Claro que a combinação fitinha magnética+mini roldanas tinha tudo pra dar merda ) e ainda tinham o inconveniente de você não poder selecionar a faixa (não sem perder algum tempo).  Mas algo me diz que o K7 foi de certa forma marginalizado devido a sua associação com pirataria.

Hoje é quase impossível de imaginar mas houve uma época em que as pessoas compravam discos (pasmem, crianças com menos de 20 anos!). Ninguém pensava em falsificar um disco, embora já houvesse sim comércio de fitas piratas. O negócio é que as tecnologias de produção e distribuição não eram tão acessíveis quanto hoje. Produzir mais de vinte cópias de qualquer coisa não era tarefa assim tão fácil e as pessoas ainda eram ingênuas o suficiente pra acreditar em mitos como “fita pirata estraga o aparelho”.

Daí veio o áudio digital, o Compact Disc (o “nome todo” do CD que quase ninguém lembra) e tudo ficou mais fácil. A história de como este desbancou o vinil todo mundo conhece mas da coitada da fita K7 ninguém lembra. Talvez alguns resistentes tenham continuado a usá-la durante um tempo pra gravar músicas do rádio, por exemplo (coisa que eu fazia muito!), mas até o rádio entrou no ostracismo. :(

Mas esse não era pra ser um post nostálgico, era só pra mostrar a ironia disso tudo. É no mínimo curioso que o suporte físico seja tão valorizado já que música é algo tão imaterial. Quer dizer, o som só precisa de ar pra se propagar, logo a música não depende necessariamente de um suporte para existir. Porém, sabemos que a captação e a reprodução podem modificar sensivelmente e até radicalmente o modo como um instrumento pode soar.

Acho que McLuhan ficaria com um sorrisinho no rosto e diria “eu não falei?”. E se Walter Benjamin proclamou que a reprodutibilidade técnica matava a alma da obra de arte, o que dizer para aqueles que acreditam (mesmo sem saber) que “o meio é a mensagem”?. Nenhuma das duas perspectivas parece dar conta dessa imaterialidade da música. Mas eis aqui uma certeza: se alguns sentem saudade do chiado dos discos de vinil, eu sinto saudade de rebobinar a fita com a caneta e de apertar REC e PLAY.

Radio, radio

Radio, radio

Sempre fico meio triste quando ouço as pessoas dizerem que ninguém mais ouve rádio. Primeiro porque aqui em casa sempre se respirou música e o rádio tem um papel fundamental no nosso dia-a-dia até hoje. A primeira coisa que a minha mãe faz todos os dias é ligar o rádio e, de alguma forma, só de ouvir a programação eu sei se é dia de semana, sábado, domingo ou feriado. Mesmo tendo meu iPod como amigo inseparável de todas as horas, o rádio ainda tem uma função fundamental na minha vida, seja para descobrir coisas novas, seja para relembrar o passado.

Adquiri o costume de interpretar as músicas que tocam no rádio como sinais, uma espécie de oráculo, como se fosse a voz de um ser superior tentando me transmitir mensagens (É maluquice, eu sei, mas também é divertido). Hoje de manhã, por exemplo, assim que eu liguei o rádio tocou Quase um Segundo, música do Cazuza mas na versão do Paralamas do Sucesso. A frase “será que você ainda pensa em mim?” ficou ecoando na minha cabeça e me fez relembrar coisas que eu não sei bem se queria relembrar. Mas essa é a mágica da coisa: é mais forte que você e não te deixa muita escolha.

Outra coisa que acho incrível no rádio é o sentido de comunidade que se cria. Você sabe que em algum lugar alguém esta falando diretamente para você e para outras pessoas que talvez pensem e sintam o mesmo que você. Esse tipo de coisa é muito difícil de se reproduzir na era da internet. A promessa das web rádios não se cumpriu muito e a unica coisa que consegue emular com alguma eficiência esse sentido de comunidade do rádio são os podcasts. Mas como boa nostálgica que sou não consigo deixar de pensar que não é a mesma coisa… :(

Algo que julgo importante e que me deixa triste que as pessoas não se lembrem é o papel que emissoras de rádio tiveram na nossa história como, por exemplo, a Rádio Nacional e a Fluminense FM, para ficar só no Rio de Janeiro. Tudo bem que hoje em dia praticamente não existem mais rádios de rock no Brasil (a extinta Rádio Cidade era uma das últimas e acho que só a Kiss FM e a 89 em São Paulo ainda sobrevivem) mas, peraí né gente, nem só de rock vive um ser humano! Ainda existem boas estações de rádio como a MPB FM  e a Rádio Mec que além de serem muito informativas ainda tocam músicas difíceis de se encontrar por aí.  Especificamente no caso da Rádio Mec, que é uma rádio majoritariamente de música clássica, a programação tem ainda mais importância: Mesmo em tempos de compartilhamento generalizado de arquivos de áudio, não dá pra dizer que seja fácil baixar obras completas de Rachmaninoff ou Mahler.  A rádio acaba sendo uma maneira de formar culturalmente os ouvintes sem, com isso, cair no paternalismo.

E sobre paternalismo eu não preciso falar muito já que o Elvis Costello cobriu o assunto com bastante eloquência em Radio Radio. Primeiramente ele conseguiu captar muito bem o sentimento que eu descrevi acima: ” I was tuning in the shine on the light night dial / Doing anything my radio advised / With everyone of those late night stations / Playing songs bringing tears to my eyes”

Muitos se referem a essa música como “Um hino anti mídia de massa”. Eu já tenho uma interpretação menos rasa. Pra mim Radio Radio é uma música sobre a relação de amor e ódio, ame-o-ou-deixe-o, com o rádio e com a mídia de uma maneira geral. ”I wanna bite the hand that feeds me / I wanna bite that hand so badly“. Ora, Elvis Costello não é desses caras ingênuos, adornianos e conservadores que acham que mídia de massa só emburrece as pessoas. Ele sabe que depende da mídia. Na verdade ele a recriou à sua imagem e semelhança ao mesmo tempo em que foi criado por ela. É quase como a nossa relação com nossos pais: Somos gratos a eles e reconhecemos seu esforço em nos educar mas não suportamos que nos digam o que fazer. Nos deixem errar do nosso jeito!

Claro que existe uma crítica mas ela é direcionada àqueles que se deixam anestesiar. “Some of my friends sit around every evening /And they worry about the times ahead / But everybody else is overwhelmed by indifference /And the promise of an early bed“. Ele acredita que é preciso manter uma visão crítica mas ainda assim é possível (e fundamental!) se emocionar com o rádio. Portanto, galera que acha que o rádio morreu, é melhor ouvir o tio Costello. You better listen to the radio.