No início era o verbo. Ou melhor, a canção interpretada pelo artista diretamente para seu publico, sem mediação, o que o sociólogo e crítico musical Simon Frith chamou de estágio folk da música. Depois, passou a ser possível registrar as composições através de notações mas mesmo assim a interpretação se mantinha “icapturável”, “irregistrável”. Tente imaginar um tempo em que a única maneira de você ouvir, vamos dizer, Chopin tocando, era indo a um de seus concertos. Pior, não havia uma maneira de capturar o momento a não ser na sua memória. Crazy, isn’t it? Depois veio o fonógrafo, o gramofone e aí a coisa não parou mais. Inúmeras maneiras de se registrar, gravar, capturar o som foram criadas, muitas delas a gente provavelmente sequer ouviu falar. Só da superfície da memória eu poderia citar o cilindro de acetato, a fita magnética, o disco de vinil, o compact disc e demais formatos digitais, só para ficar nos que, de fato, se popularizaram. A este estágio, Frith deu o nome de estágio pop da música e ele é marcado por um distanciamento entre artista e público – o estágio intermediário é o classico, onde a música era armazenada através da notação musical.
Assim como é difícil imaginar um tempo em que o único suporte que a música possuia era o ar (ou a memória, se você quiser pegar um caminho mais abstrato) é igualmente louco pensar que há uma geração inteira que pode nunca ter adquirido música em um suporte material (ir numa loja, comprar um LP, CD, o que for, ter a música nas mãos). Alguns vão argumentar que o mp3 é um formato material na medida em que, de uma forma ou de outra, ele ainda precisa de um suporte (um mp3 player, um ipod que seja) mas é diferente. Ninguém vende aparelhos de mp3 com seu disco dentro (embora eu ache que seria uma ótima ideia).
Há séculos eu não comprava um CD. Semana passada comprei o álbum North do Elvis Costello em CD e só porque ando empenhada na tarefa de ter a discografia completa do homem (em vinil. Mas a partir de um certo ponto isso se torna difícil, o que me obrigou a voltar a comprar um CD em, sei lá, dez anos O.O). Tinha esquecido completamente da sensação de pegar um CD, folhear o encarte, etc., ter a música nas mãos de alguma forma. By the way, o encarte deste CD é lindo e – algo que me chamou atenção – traz as letras das músicas no original, em inglês, em francês, espanhol e português. <3
Nunca fui muito ligada em novidades da indústria fonográfica mas essa semana nada menos que três lançamentos me chamaram atenção. O primeiro foi o album Chão do Lenine. O trabalho esta recebendo bastante atenção da mídia mas meu primeiro contato com ele foi através de um live chat feito pelo cantor através do Twitter (Twitcam, mais precisamente). Lenine é um cara que sempre esteve antenado não só em relação às novas mídias mas em todo o tipo de tendência artística e cultural. Sempre o considerei um cara à frente do seu tempo (apesar do desgaste dessa expressão, acho que ela se aplica perfeitamente a ele), um surfista nas ondas do espaço-tempo, o que sempre se reflete nas suas músicas. Essa semana só tive mais certeza disso.
Segundo Lenine, Chão é um disco “para se ouvir numa tacada só. Como se fosse uma suíte”. O conceito de Chão, inclusive, tem tudo a ver com a ideia que quero colocar aqui sobre os suportes. O album traz sons do mundo e um “namoro com a música concreta”. A capa traz uma foto de Lenine com seu neto repousando sobre seu peito. Segundo ele, o bebê gosta de ficar assim para ouvir os sons do corpo que fazem lembrar da barriga da mãe. Outros sons presentes no disco vão desde o canto de um canário aos batimentos cardíacos de Bruno, filho do cantor, passando pelo som dos passos no orquidário onde foram gravadas algumas faixas. Ainda segundo Lenine durante o chat, “Chão é o que me sustenta”. Eu digo mais, chão é o suporte, um suporte material e imaterial ao mesmo tempo, um terreno em que se pode tanto pisar firme quanto flutuar sobre ele. Lenine, em plena crise do suporte (porque, vamos combinar, a música vai muito bem, obrigada. O que está em cheque é a comercialização da música, as formas de distribuição, o que passa, necessariamente, pelo suporte físico da canção) em um momento em que cada um monta sua própria programação musical através de fragmentos de obras – a famosa cultura do shuffle – o cara me faz um album que é uma obra completa, com início meio e fim, em que as partes nunca poderão falar pelo todo, em que nada é descartável ou aleatório. Será que estamos vendo o renascimento do álbum enquanto conceito?
O segundo lançamento que me chamou atenção nessa semana musicalmente agitada foi Lulu, um álbum colaborativo entre Lou Reed e Metallica. A parceria nasceu em 2009 no encontro da banda com o ex-líder do Velvet Underground no concerto de 25 anos do Rock and Roll Hall of Fame, onde tocaram juntos alguns clássicos do Velvet. Ali, decidiram que a parceria deveria se transformar em um álbum. Metallica, aquela banda que tomou a iniciativa de processar o Napster e deflagrou a guerra contra o MP3 e que, dez anos depois, disponibilizou seu último álbum, Death Magnetic, na íntegra para download (pago) em seu site, LIBEROU o álbum completo para ouvir online, via streaming (e eu ouvi, claro).
Lulu é uma ópera em três atos do compositor austríaco Alban Berg cujo libreto é uma adaptação das peças teatrais Erdgeist (1895), de Frank Wedekind e A Caixa de Pandora, (1903), do próprio Berg. Em 2010 foi feito o caminho inverso e Lou Reed foi responsável por adaptar a ópera de volta para o teatro, em Berlim. Já em 2011, Reed decidiu trabalhar Lulu em outro nível e achou que o Metallica era a banda ideal para a tarefa.
Não é segredo pra ninguém que Heavy Metal e música clássica tem tudo a ver mas diferente da já tradicional combinação dos dois estilos na forma do Power Metal, Synphonic Metal, etc, Lulu, o álbum, é de fato uma ópera metal. São músicas (ou eu deveria dizer, uma suíte?) que eu me sentaria numa sala de concerto para ouvir tranquilamente. Ou ainda, colocaria o disco para tocar sentada na minha sala com uma taça de vinho e luz baixa e eu nem precisaria sair para chorar como (segundo consta) fez James Hetfield inúmeras vezes enquanto gravava – Lulu conta a história de uma jovem que sofreu abuso, trabalhou como dançarina e se prostituiu e chama atenção o teor “pesado” das letras compostas por Reed.
O terceiro acontecimento fonográfico da semana foi o pré-lançamento do novo álbum do Tom Waits. Bad As Me será lançado oficialmente na próxima terça-feira, dia 25, mas alguns fãs que se cadastraram previamente já podem ouvir o álbum na íntegra, via streaming, através do hot site oficial. Antes disso, Tom Waits chamou atenção ao comunicar o lançamento do álbum em uma ação na internet que incluía colocar alguns fãs dentro de um carro para ouvir trechos do album. Fico me perguntando se Tom Waits é o tipo de artista que (1) precisa de ações ousadas na internet para lançar um álbum e (2) precisa lançar o referido álbum em formato user-friendly para todos os tipos de público. Quero dizer, me parece que se o cara lançasse o disco SÓ em vinil, por exemplo, isso não comprometeria nem um pouco as vendas. Pelo contrário, arrisco dizer que daria até mais lucro. A questão é, o que ele está querendo nos dizer com isso? – Até porque, um cara como Tom Waits não faz nada a toa, né?
Pra mim parece bastante claro que se deve investir em um formato imaterial para a música que é uma arte imaterial por essência, excelência e definição. Se nem o CD, nem o vinil, nem o mp3 parecem sustentar mais o mercado de música, que tal sustentar a música em si mesma? De maneira mais objetiva, me parece que, nos dias de hoje, mesmo com um quadro aparente de fluidez cultural em que as pessoas parecem navegar por estilos, tendências e gêneros musicais, produzir uma obra completa, plena, conceitual é, ao mesmo tempo, anacrônico e um espírito do tempo presente. Por acaso temos a internet para difundir esta ideia mas poderia ser qualquer coisa. O importante é a música, ela que é o nosso chão, o terreno onde podemos tanto pisar firme como deslizar, o mais imaterial dos suportes. A música é o meu chão e o chão é o que me sustenta.
A música não está em crise, como querem acreditar os apocalípticos. Nunca esteve. O fato é que estamos repensando o modo como consumimos música e se boa parte da indústria ainda parece perdida (mesmo depois de uma década inteira de murro em ponta de faca), parece que alguns artistas já encontraram seu caminho e sabem muito bem em que terreno estão pisando. Me parece que o caminho mais sensato é seguir os passos desses caras. Até porque eles já nos levaram a muitos lugares que adoramos visitar. Não perdemos nada em continuar confiando neles.















